Ex-companheiras e ex-funcionários ouvidos pela reportagem alegam ter sido enganadas e prejudicadas pelo coach
Por Amanda Audi, Raíssa França | Edição: Mariama Correia
Depois da reportagem que revelou como um coach de masculinidades aplicou calotes contra dez pessoas, a Agência Pública e o portal Eufemea receberam relatos de outras oito pessoas, homens e mulheres, que também alegam ter sido enganadas, manipuladas e prejudicadas por ele. Ao todo, foram ouvidas mais de 20 pessoas, entre ex-companheiras, ex-colegas de trabalho e ex-funcionários, mas nem todas autorizaram a publicação de suas histórias.
Manoel Pinto fez carreira em agências de publicidade de Maceió (AL), sua cidade natal, e ganhou popularidade após ter se autodeclarado especialista de masculinidades – ramo ligado ao feminismo que debate como desconstruir o machismo em homens – em São Paulo. Ele era contratado por grandes empresas, como Petrobras e Ambev, para falar sobre o assunto com seus funcionários, e foi ligado ao Instituto Papo de Homem.
Pinto faturava até R$ 50 mil por palestra para pregar que homens têm que dividir as tarefas dentro de casa, cuidar dos filhos e lutar contra o patriarcado junto com as mulheres. Dentro de casa, porém, era diferente. De acordo com relatos ouvidos pela reportagem, Pinto era violento com a filha, cometeu abusos psicológicos e era um “traidor compulsivo” de ex-namoradas. Segundo as pessoas entrevistadas, ele também não pagou funcionários, acumulou dívidas em nome de outras pessoas e inventou uma série de mentiras para justificar seus atos.
Além disso, ainda de acordo com os relatos, Pinto se esforçava para passar uma imagem diferente do que ele era. Ao adotar o discurso das masculinidades, uma pauta ligada à esquerda, ele omitiu que na verdade já foi filiado ao Partido Novo, ao Avante, e ao PTB, que são de direita. De acordo com as pessoas entrevistadas, o coach frequentava lugares caros e da alta sociedade, apesar de pedir dinheiro emprestado para namoradas porque estaria quebrado.
Na reportagem publicada no dia 17, a Pública já havia mostrado relatos de dez pessoas que acusavam Pinto de calotes financeiros que somam R$ 200 mil. De acordo com elas, o coach dizia que precisava de dinheiro porque era pai solo e tinha suspeita de câncer – o que seria mentira.

Tentamos contato com Pinto, que alegou que a primeira reportagem teria “distorcido” as suas respostas – apesar de a conversa ter sido gravada e reproduzida de modo fiel –, que “não autoriza publicações em seu nome” e ameaçou a reportagem de processo. Na conversa anterior, no início de março, ele admitiu que não praticava o que pregava nas palestras e cometeu erros, mas alegou que “não é mau-caráter” e apenas “foi moleque”.
Por que isso importa?
- Após as primeiras revelações de estelionato financeiro e amoroso contra o coach de masculinidades Manoel Pinto, pela Agência Pública, surgiram novas acusações.
- Ao todo, 22 pessoas, entre ex-companheiras e ex-funcionários, dizem que foram enganadas, manipuladas e prejudicadas por ele.
A publicitária Viviane Santos teve um relacionamento com Pinto por quatro anos, entre 2016 e 2020. Eles tiveram uma agência de publicidade juntos, apesar de, segundo ela, nunca ter sido nomeada como sócia ou sequer registrada. Santos diz que era a responsável por todo o trabalho em casa e na agência, enquanto Pinto se dedicava a gravar vídeos tentando virar influencer. Em um deles, ele aparecia lavando o banheiro – coisa que nunca fazia no dia a dia, de acordo com a ex-companheira.
“Era eu que fazia tudo dentro da empresa, eu que botava dinheiro dentro de casa, e ainda fazia as tarefas domésticas, como se fosse a empregada”, diz Santos. Além de não ajudar, Pinto também não seria o “pai amável” que dizia ser. Ela conta ter presenciado várias situações em que o ex-companheiro foi agressivo com a filha mais nova.
“Ele gritava e perdia a paciência com coisas bobas. Por exemplo, se ela não tinha feito a lição de casa ou estava fazendo birra, ele batia na mesa, dava palmadas nela, nos braços e no bumbum. Dentro de casa ele era assim, mas na rua, na frente de outras pessoas, era o pai mais carinhoso e amoroso possível”, diz a ex-companheira.
“Uma vez, na casa da mãe dele, quando a menina tinha uns 5 anos, ele perdeu a paciência com algo e bateu nela com muita violência, praticamente espancou. Foi assustador. Nós tentamos fazer ele parar, mas não adiantou”, lembra.
Santos carregou uma dívida de mais de R$ 30 mil do cartão de crédito que Pinto usava e outras contas que ele teria colocado no nome dela – como o aluguel do escritório da agência. Ela diz que ainda há outras dívidas da agência, como o salário de funcionários que ele deixou de pagar.
“Ele me colocava pra baixo, me fazia sentir que não era capaz. Dizia que só estava comigo por causa da minha bunda”, afirma. “Minha autoestima acabou. Engordei 20 quilos, almoçava na frente do computador porque trabalhava o tempo inteiro. Era muito infeliz.”
Segundo Santos, ele não batia nela, mas descontava em móveis e na parede quando ficava nervoso. Por não ter apanhado, ela diz que foi desacreditada quando contou para outras pessoas que vivia um relacionamento abusivo. “Me falavam: ‘Mas ele é tão gente boa, será que você não está exagerando?’.”
Ela só terminou o relacionamento após meses de terapia. Ao falar sobre o assunto, ainda se emociona. “Eu pensava: ‘Será que sou tão burra por ter deixado ele fazer tudo isso comigo?’. Sempre fui forte, independente, mas deixei ele me manipular assim”, diz. “Eu não queria ficar no papel de vítima, então, quando eu falava e as pessoas não acreditavam, passei a ficar em silêncio.” Após a publicação da primeira reportagem da Pública sobre o caso, ela diz que teve coragem de falar para servir de alerta a outras mulheres.
Outra ex-noiva de Pinto, que preferiu não ser identificada, conta uma história parecida. Eles ficaram juntos entre 2010 e 2012. No começo, tudo eram flores. Depois, as contas e o serviço passaram a ficar com ela. “Ele me traiu e roubou como fez com as outras. Uma das mulheres com quem me traiu ficou grávida, e ainda assim ele queria casar comigo. Me convenceu a fazer um empréstimo para limpar seu nome, porém nunca me pagou, depois saiu dizendo que não me devia nada. Na época, foram R$ 9 mil”, afirma.
Uma outra ex-namorada que também falou sob condição de anonimato detalhou a maneira como ele “fisgava” as mulheres. “Vinha com conversa de homem apaixonado, de quem estava muito a fim. Ele conversa olhando no olho, com toques, cerca a pessoa de uma forma como se estivesse enfeitiçado”, afirma. “Mas fui percebendo as red flags[sinais de alerta]. Ele falava mal de outras mulheres, se fazia de vítima e contava mentiras. Dei um basta.”
Mentiras e manipulação
Outra mulher que também preferiu não ter o nome divulgado contou que estava vivendo uma fase difícil em seu relacionamento e que Pinto, ao perceber isso, se aproximou oferecendo apoio. “Ele dizia que estava preocupado comigo, que, se estivesse acontecendo alguma coisa violenta, era para eu contar a ele”, relata.
Certo dia, ele a convidou para gravar um vídeo em sua casa. Durante a visita, ele a chamou para um dos quartos, alegando que precisava falar algo sério. Foi então que afirmou ter acessado a ficha criminal do companheiro dela, dizendo que havia uma medida protetiva por violência contra a mulher e que ele teria agredido a ex-companheira.
“Ali acabou o meu mundo. Eu entrei em desespero”, afirma. Ela conta que Pinto usou um discurso de preocupação e usou nomes de advogadas e de delegadas para justificar que tinha conseguido essa informação porque era amigo delas. “E que eu não podia contar nada para ele, senão corria risco de vida”, diz.
Assustada e grávida, ela terminou o relacionamento, mas sente culpa até hoje. “Você tem noção do que esse homem fez comigo? Eu passei dois anos em depressão profunda. Cheguei em casa, acusei meu companheiro injustamente. Ele é um homem correto, e o que mais me dói é que eu acreditei no Manoel, mas não acreditei no meu companheiro.
Depois do nascimento do filho, ela enfrentava um momento delicado e foi nesse período, em 2021, que Pinto voltou a procurá-la com outro tipo de abordagem. “Ele começou a insinuar que cuidaria bem do meu filho, disse que já tinha passado por isso e que entendia como era”, relata.
Ela conta que, com o tempo, as conversas com ele passaram a cruzar limites. “Ele começou a dizer que eu era muito ‘gata’”, relembra. Ela disse que foi nesse momento que “a ficha caiu”. Desconfiada, procurou o ex-companheiro e percebeu que Pinto havia mentido sobre todo o histórico de violência. “Ele não mente só pra tirar dinheiro das pessoas. Ele mente para manipular, para controlar, para destruir vidas”, desabafa.
Calotes a ex-funcionários
O publicitário Júnior Araújo trabalhou na agência de Pinto e Santos entre 2018 e 2019. Ele conta que o coach tinha com funcionários um modus operandi parecido ao que utilizava com mulheres: era gentil e carinhoso no começo e, depois de ganhar a confiança, passava a ser agressivo.
Segundo ele, o ex-chefe o xingava na frente de outras pessoas, já jogou um fone de ouvido no seu rosto, apresentava trabalho que o funcionário fez a clientes como se tivesse sido ele quem tinha feito e atrasou três meses de salário. Araújo teve que entrar na Justiça para receber os R$ 10 mil que lhe eram devidos, mas só obteve um acordo para receber R$ 5 mil em dez vezes.
Um publicitário que preferiu não ser identificado também trabalhou na agência de Pinto e Santos em 2019. Antes de aceitar a proposta, chegou a receber alertas sobre o comportamento do empresário, mas não acreditou. Ele trabalhou entre dois e três meses, mas recebeu apenas uma parte do combinado. “No primeiro mês, pagaram R$ 500, porque eu tinha começado no meio do mês. Mas depois, quando trabalhei o mês completo, com todas as contas para pagar, eles não me pagaram”, afirma.
O publicitário lembra que os atrasos foram justificados por supostos problemas internos. “Diziam que tinha dado um problema aqui, outro lá, e o tempo foi passando. Eu cobrava, perguntava o que estava acontecendo, e nada”, relata. Após ter marcado uma reunião para tentar resolver a situação dos pagamentos atrasados, foi surpreendido com o encerramento repentino das atividades da empresa.
O prejuízo, no entanto, foi além do financeiro imediato. Os meses seguintes foram marcados por instabilidade emocional e dificuldades para arcar com compromissos pessoais. “Fiquei com dívidas na faculdade, atrasei quase todas as minhas contas. Foram uns cinco meses bem tristes”, afirma.
Uma ex-funcionária que trabalhou na agência de Pinto e Santos entre 2017 e 2018 compartilhou os impactos emocionais e financeiros que sofreu durante o período. Segundo ela, Pinto tentava manter a equipe motivada por meio de promessas e apelos emocionais. Na época, ela recebia R$ 826,80. Ela relata que ele chegava à agência chorando, dizendo estar enfrentando problemas de saúde e afirmando que não tinha condições de pagar os salários, mas pedia que todos continuassem trabalhando.
À reportagem, ela relembra que, no período final da graduação, foi aprovada para um intercâmbio na Coreia do Sul com bolsa de estudos, mas comprometeu-se a continuar trabalhando na agência até a data da viagem. No entanto, os atrasos salariais começaram a se tornar frequentes.
“Já estávamos há dois meses sem salário. E, como eu era responsável pelos orçamentos, sabia que o dinheiro estava entrando na agência. Atendíamos muitos clientes, com valores altos de produção, e mesmo assim os salários não eram pagos”, afirma.
Preocupada e precisando do salário, ela foi conversar com Pinto e explicou sobre a oportunidade que tinha conseguido, mas que precisava do salário, já que a bolsa de estudos não cobriria tudo. Mas, após essa conversa, ela teria passado a ser alvo de constrangimentos dentro da agência. “Ele falava na frente de todo mundo. ‘Tá vendo, galera? Ela passou no intercâmbio e agora não quer mais ajudar a gente.’ Dizia que eu atrapalhava o trabalho dos outros, que todo mundo sofria por causa de mim. Sendo que todos ali também estavam sem salário”, relembra.

A saída dela da agência aconteceu após um episódio envolvendo uma confraternização. Ela foi ao local combinado, mas descobriu que o endereço havia sido alterado sem que fosse informada. “Falei no grupo da confraternização e ninguém respondeu. Depois, o Manoel me ligou e começou a me esculhambar. Disse que eu queria aparecer, que estava virando a agência contra ele, que os meus amigos tinham vergonha de mim. Disse que eu não ia dar certo no intercâmbio.”
A ex-funcionária só recebeu o salário devido, de forma parcelada, após ter entrado com uma ação trabalhista, mas ela diz que, emocionalmente, demorou anos para se recuperar. “Infelizmente, isso foi no início da minha carreira. E por muito tempo eu não enxergava o meu valor, não reconhecia o peso da minha experiência. Foi só no fim de 2024 que eu comecei a perceber que eu não era o que ele dizia.”
“Ele sempre dizia que estava doente, que era pai solo, que enfrentava uma vida difícil com as filhas… E eu só conseguia pensar: ele está manipulando todo mundo”, acrescenta.
Viviane Santos reconhece que vários funcionários ficaram sem pagamento, mas diz que Pinto era o responsável por decidir como usar o dinheiro recebido pela agência e era ele quem decidia quem iria receber ou não. “Eu não concordava com muitas coisas, mas tinha que aceitar”, diz.
Outra pessoa que trabalhou por anos com Pinto em outra agência, e que não quis ser identificada, diz que teve “sérios problemas” com ele. O coach teria causado conflitos na equipe ao dar em cima de colegas e clientes. Ele não teria pago um carro que comprou de um dos funcionários da empresa. Os chefes teriam intermediado para apaziguar as brigas – ele concordou em devolver o carro, mas não deixou de cantar as mulheres.
“Ele tinha a traição como algo patológico. Procurava mulheres com problemas de autoestima e ia construindo uma proximidade. Primeiro é um cavalheiro, um gentleman, daqui a pouco a mulher empresta dinheiro, entra em sociedade, ele gasta tudo e some. Vi ele fazer isso com pelo menos seis mulheres”, diz. “Ele usava isso até para fazer negócios. Ele olhava para uma cliente e falava ‘aquela é carente, eu vou pegar’.”
Por fim, Pinto inventou que estava com leucemia (na primeira matéria, mostramos que ele mentia que estava com câncer) e conseguiu um acerto para ser demitido da agência. As pessoas da empresa ficaram aliviadas. “Sinto que ele poderia ter feito menos vítimas se eu tivesse tido coragem de botar a boca no trombone”, diz um ex-colega de trabalho.
Fonte: Agência Pública