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    Fora do impasse das COPs, Conferência em Santa Marta testa nova via para abandonar combustíveis fósseis
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    Encontro em cidade da Colômbia quer contribuir para mapa do caminho rumo ao fim do petróleo, gás e carvão, proposto durante a COP30, mas que deverá ser apresentado em novembro deste ano. Além disso, ministra do Meio Ambiente do país promete discutir ações sem as amarras do lobby da indústria petrolífera.

    Representantes de 56 países do Norte e Sul Global se reúnem em Santa Marta, no Caribe colombiano, para buscar caminhos concretos para o fim dos combustíveis fósseis. A 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis ocorre a partir desta sexta-feira (24) até a próxima quinta-feira (29), recolocando no centro do debate o principal vilão da agenda climática, ponto em que as negociações climáticas tradicionais têm falhado.
    Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em novembro do ano passado, em Belém, 24 países já haviam sinalizado presença nessa nova rodada de discussões em Santa Marta. Cinco meses depois, a adesão mais que dobrou, indicando uma articulação internacional crescente em torno da necessidade de sair do papel e avançar para a implementação.
    Nesse movimento, o Brasil ocupa uma posição estratégica. Ainda durante a COP30, o presidente Lula (PT) defendeu a construção de um “mapa do caminho” global para orientar a transição e o fim dos combustíveis fósseis. A proposta chegou a mobilizar um grupo de países nos bastidores, liderado por Colômbia e Países Baixos, mas acabou esvaziado no texto final da conferência, aprovado sem metas claras para reduzir a dependência de petróleo, gás e carvão.
    Santa Marta surge como um desdobramento do incômodo deixado pelo resultado da COP30, que acabou limitado pelo modelo das tradicionais conferências climáticas, em que a adoção de novas políticas depende do consenso de todos os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU).
    “O que queremos aqui é unir esforços, pensar em conjunto. O que nos atrai é a coalizão, o coletivo. O que podemos fazer juntos que cada país não consegue fazer separadamente?”, declarou a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, na tarde desta sexta-feira durante a abertura da conferência.

    Ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, na tarde desta sexta-feira durante a abertura da conferência de Santa Marta. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

     

    “Sabemos que isso significa repensar os desafios das cúpulas das partes, os desafios do realismo climático multilateral. Nesse sentido, nos vemos como complementares. Um complemento que é, por assim dizer, mais livre e, esperamos, mais honesto”, complementou. Vélez também afirmou que o encontro ocorre “livre do lobby das indústrias petrolíferas” e “sem agendas ocultas”.
    Na Colômbia, a proposta é criar um espaço focado na implementação — não apenas na negociação. A escolha do país como sede não é casual. Apesar de ainda depender da exploração e exportação de combustíveis fósseis, o governo de Gustavo Petro vem tentando reposicionar sua política energética, adotando um discurso favorável à transição.
    Durante a COP30, Vélez Torres declarou toda a Amazônia colombiana como zona livre de petróleo. Nesta sexta-feira, a ministra deu o pontapé inicial da conferência usando o próprio exemplo do país, ao “mostrar que a transição é viável”, e anunciar que decidiu “não conceder novos contratos de petróleo e gás e não expandir a indústria do carvão”. Além disso, estendeu esse compromisso de área livre de petróleo à Sierra Nevada, a maior montanha costeira do planeta, considerada o coração do mundo pelos povos indígenas.
    Santa Marta é a cidade mais antiga da Colômbia, também conhecida por ser um dos maiores e mais estratégicos portos exportadores de carvão do mundo. Seg

    undo Vélez Torres, isso reforça o simbolismo de sediar um encontro que discute justamente o fim desse modelo econômico.

    ‘Chega de promessas, ações’, diz o painel vertical instalado em Santa Marta, na Colômbia, convidando para a conferência. Foto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

    Vélez afirmou que, como resultado, a conferência deve dialogar diretamente com a iniciativa brasileira ao buscar avançar justamente onde a negociação formal travou: na construção de caminhos concretos para a implementação. O encontro deve apresentar um relatório com contribuições de países e organizações, que será entregue oficialmente às presidências da COP30 e da COP31 como contribuições para o que o presidente Lula chamou de mapa do caminho.
    O objetivo é servir como insumo político e técnico para esse roteiro, que o Brasil pretende apresentar em novembro deste ano, no âmbito da presidência da COP30, além de alimentar e pressionar futuras negociações no sistema das Nações Unidas.
    Uma nova conferência, de fato

     

    Após mais de três décadas de conferências anuais, os combustíveis fósseis só foram mencionados de forma explícita na COP28, quando os quase 200 países membros da ONU se comprometeram com uma “transição” para o fim do uso de combustíveis fósseis.
    Dois anos depois, a COP30, no Brasil, terminou sem conseguir avançar no tema. O texto consensuado entre as nações evitou estabelecer compromissos diretos para a eliminação da dependência dos fósseis.
    Agora, o que se desenha em Santa Marta é um rearranjo incomum no tabuleiro das negociações climáticas. A conferência abre espaço para que nações mais vulneráveis e atores historicamente marginalizados, como as ilhas do pacífico, povos indígenas, cientistas e organizações da sociedade civil, tenham uma maior participação direta na formulação de soluções, deslocando o eixo tradicional das decisões climáticas.
    “A decisão sobre como vamos planejar a eliminação gradual dos combustíveis fósseis envolve a criação de territórios para a vida, sim, zonas de exclusão do extrativismo, sim, zonas aceleradas, zonas que devem ser priorizadas para o fechamento progressivo”, afirmou Vélez.

    Ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Veléz.

     

    De um lado, ficam ausentes as principais potências no uso dos combustíveis fósseis: China, Índia e Estados Unidos. De outro, um bloco heterogêneo começa a se consolidar, reunindo economias centrais do Norte Global, como Canadá, Alemanha, Reino Unido, Noruega e a União Europeia, além de países do Sul Global que também dependem fortemente da exploração de petróleo, gás e carvão, como Brasil, México, Tanzânia e Vietnã.
    A aposta é que essa combinação, que inclui o peso econômico das nações participantes e a pressão dos territórios mais afetados, consiga produzir algo que até agora escapou às grandes cúpulas do clima.

    A ministra colombiana afirmou que países como Estados Unidos e Rússia não foram convidados para a conferência por defenderem abertamente uma “agenda extrativista”. Já a China foi convidada apenas para o segmento privado. “Não queríamos entrar na mesma rotina das Conferências das Partes, onde participam atores que são precisamente contrários ao debate central, que é a superação dos combustíveis fósseis.”

    O formato também altera a dinâmica tradicional das negociações, historicamente concentradas nas grandes potências. Em Santa Marta, países mais vulneráveis e diretamente afetados pelas mudanças climáticas ganham protagonismo na definição de soluções, em um movimento que busca reequilibrar a relação entre quem mais emite e quem mais sofre os impactos.
    A nova conferência tenta, portanto, operar fora desse bloqueio estrutural. Ao reunir apenas países e atores dispostos a avançar, aposta na ideia de que um grupo menor, mas alinhado, pode gerar pressão política e técnica para destravar o debate global.
    Outro elemento central é o método. Em vez de um documento final negociado linha a linha, como ocorre nas COPs, o encontro deve produzir um conjunto de propostas e experiências construídas colaborativamente. Serão incorporadas contribuições da sociedade civil, da academia e de diferentes setores produtivos.

     

    “É a primeira conferência e ela não tem o objetivo de encerrar essa conversa, nem de produzir uma decisão vinculante, mas precisa apontar caminhos. Como os países que já estão prontos, eles podem se apoiar mutuamente, acelerar a ação e estruturar esses processos”, afirma Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima. Segundo ela, um dos pontos-chave será a conexão entre Santa Marta e o processo liderado pela presidência brasileira da COP30: “são processos paralelos, mas que devem se informar mutuamente, o que pode ser de bastante valia”.

     

    A expectativa é que o material final da conferência sirva para orientar políticas nacionais e alimentar os próximos ciclos da diplomacia climática. Mais do que um evento isolado, Santa Marta pretende se consolidar como um novo polo de articulação política para países que defendem a transição energética.

    Até a próxima quinta-feira, a cidade colombiana deve funcionar, portanto, como um laboratório político e técnico. Um espaço menos travado, mais experimental, que tenta responder a uma pergunta: se já existe consenso científico sobre a necessidade de abandonar os combustíveis fósseis, o que ainda impede que isso aconteça?

     

    Fotos e texto: Fábio Bispo/InfoAmazonia

    Esta reportagem foi produzida por InfoAmazônia, por meio de uma parceria de cobertura da 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, e publicada com edições do [VEÍCULO QUE REPUBLICA]. Leia a reportagem original em: Link

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