Por Leonardo Grisotto, Co-Fundador e Sócio da ZAXO M&A Partners
Não estamos falando mais de empresas “verdinhas” como uma categoria simpática ou alinhada com branding. Estamos falando de ativos que reduzem risco, aumentam previsibilidade e, principalmente, sustentam valor no longo prazo. Em um ambiente de capital mais seletivo e custo financeiro ainda elevado, isso muda completamente a lógica no mercado de M&A.
Os dados ajudam a tirar essa discussão do campo da percepção. Segundo levantamento da Intel Market Research, cerca de 62% das operações de M&A já incluem cláusulas de due diligence ESG, enquanto 78% das instituições financeiras exigem esses critérios para aprovação de investimentos, um indicativo da incorporação crescente desses critérios à estrutura das transações e que virou porta de entrada do capital.
Em 2026, cerca de um terço das transações globais de M&A já incorpora critérios ESG de forma estruturada, não como discurso, mas como determinante de valuation, da estrutura do deal e da decisão final. Em setores como energia, infraestrutura e indústria exportadora, isso já é praticamente regra.
E essa mudança não aconteceu porque o mercado “ficou mais consciente”. O capital ficou mais criterioso. Uma empresa que consome menos energia, que tem cadeia rastreável, que não carrega passivo ambiental oculto e que opera com governança consistente é, por definição, menos arriscada. E risco, em M&A, tem preço. Já vimos operações avançadas perderem tração por inconsistência em dados ambientais ou fragilidade de governança. Não porque o tema virou prioridade de discurso, mas porque passou a ser indicador de risco.
Empresas com práticas sustentáveis bem estruturadas conseguem negociar melhor, acessar capital com mais facilidade e, principalmente, avançar mais rápido nos processos. Quem já esteve em uma diligência sabe que tempo também é ativo. Quanto mais incerteza, mais perguntas. Quanto mais perguntas, mais demora. Sustentabilidade, quando bem estruturada, reduz esse atrito.
Ao mesmo tempo, o mercado passou a penalizar, de forma direta, empresas que não conseguem comprovar suas práticas. Esse impacto nem sempre aparece de forma explícita, mas é facilmente percebido ao longo da negociação. Ele surge na revisão do valuation após a diligência, quando inconsistências reduzem o preço; aparece em contratos mais rígidos, com mais garantias e obrigações; nas exigências adicionais para mitigar riscos e, em alguns casos, leva simplesmente à desistência do investidor antes do fechamento.
Isso também explica por que ficou mais fácil separar quem faz de quem só comunica. Em 2026, não existe mais espaço para o chamado “ESG de PowerPoint”. O que sustenta uma negociação é dado consistente, histórico confiável e capacidade de demonstrar, na prática, como a empresa opera.
E a pressão não vem de um único lado. Existe uma leitura comum de que essa agenda é puxada pelo consumidor, mas o que temos observado é um movimento mais estrutural. Grandes empresas estão exigindo padrões mais elevados de seus fornecedores. Fundos estão condicionando a alocação de capital a critérios claros. Reguladores, no Brasil e fora, estão aumentando o nível de exigência. O resultado é um efeito cascata que reorganiza cadeias inteiras.
Alguns setores já operam sob essa lógica há mais tempo, especialmente aqueles com maior exposição internacional, como energia, infraestrutura e agronegócio exportador. Outros ainda estão em transição, mas a direção é a mesma. Não é mais uma questão de “se”, mas de “quando”.
No Brasil, esse descompasso ainda é evidente. As empresas estão em estágios muito diferentes quando o assunto é estruturação e mensuração de práticas sustentáveis, pois faltam padrões claros, consistência de dados e integração com a estratégia do negócio. Mas é justamente aí que surge uma vantagem competitiva concreta. Quem consegue organizar essa agenda com método e evidência passa a se diferenciar rapidamente em processos de M&A, inclusive na disputa por capital estrangeiro. Para empresas menores, isso deixa de ser um obstáculo e passa a ser um vetor direto de valorização.
Quando eu digo que 2026 é o ano de caçar empresas sustentáveis, não estou falando de tendência. Estou falando de estratégia. Em um mercado mais seletivo, adquirir uma empresa com práticas ESG maduras significa incorporar eficiência, reduzir risco de integração e evitar passivos que só aparecem depois do fechamento. Isso tem impacto direto no retorno.
E talvez esse seja o ponto mais importante: sustentabilidade passou a ser sobre desempenho. Não é algo que entra depois, no pós-aquisição, como ajuste. Ela já entra na decisão, na modelagem do negócio e na forma como o crescimento é construído.
A pergunta que ainda aparece é se essa agenda resiste a ciclos econômicos mais duros. A minha leitura é que sim. Porque, no fundo, ela já deixou de ser agenda. Virou critério. Estamos falando de eficiência, previsibilidade e sobrevivência no longo prazo.
Referência: https://www.