Pesquisa revela que insegurança já interfere diretamente na liberdade de circulação da população; mulheres e pessoas de baixa renda estão entre os grupos mais impactados
A violência urbana deixou de ser apenas um indicador estatístico e passou a influenciar diretamente as decisões cotidianas da população brasileira. Evitar sair à noite, mudar trajetos, deixar de usar determinados espaços públicos e adaptar horários de trabalho já fazem parte da rotina de milhões de pessoas no país. O cenário, apontado pelo mais recente relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em conjunto com o Datafolha, evidencia um avanço da sensação de vulnerabilidade e da presença do crime organizado em áreas urbanas.
Segundo o levantamento, mais de 41% dos entrevistados convivem com o crime organizado na região onde vivem, um problema estrutural muito mais profundo do que aparenta, segundo André Santos Pereira, presidente da Associação dos Delegados do Estado de São Paulo e especialista em inteligência policial e Segurança Pública.
“Dados não devem ser lidos apenas como números, mas como um diagnóstico de uma epidemia criminal grave”, aponta. Para ele, “a segurança pública brasileira atingiu um ponto de inflexão onde a certeza da insegurança se descolou da estatística oficial, pois o crime organizado e a impunidade passaram a pautar diretamente o comportamento do cidadão”.
A pesquisa aponta que mesmo diante da redução de alguns crimes violentos em determinadas regiões, a população se priva de determinados hábitos e utilização de itens, como forma de autopreservação. Um exemplo é o celular. 33,5% dos entrevistados deixam de sair com o aparelho como forma de evitar assaltos. Os dados também apontam que 35,6% das pessoas deixaram de sair à noite e outros 26,8% retiram aliança e outros objetos pessoais ao sair na rua.
“Esse cenário revela um descompasso preocupante, no qual a queda dos índices de crimes como homicídios não anula o impacto devastador do crime do dia a dia, como roubos de celulares e golpes virtuais, que invadem a privacidade e geram uma sensação de onipresença da criminalidade”, aponta.
A dificuldade na resolução desses crimes, segundo André Santos Pereira, contribui para fortalecer a sensação de impunidade, já que “a dificuldade na elucidação desses crimes patrimoniais retira o temor à lei, fazendo com que o criminoso entenda que o risco de prisão é baixo frente à probabilidade de obter sucesso com o delito.”
O especialista defende que a resposta do poder público deve envolver tecnologia, integração de informações e fortalecimento das forças de investigação.
“Para reverter isso, é urgente focar na qualificação policial, inteligência cibernética e integração de dados para identificação imediata e bloqueio de ativos financeiros.”
A pesquisa também mostra que mulheres e pessoas de baixa renda estão entre os grupos mais afetados pela sensação de insegurança. A necessidade de utilizar transporte público, circular a pé e enfrentar trajetos mais longos aumenta a exposição à violência urbana.
“A violência contra as mulheres exige celeridade no monitoramento eletrônico ativo de agressores e a aplicação em massa dessa medida contra os agressores”, enfatiza André Santos Pereira, que reforça que “o combate efetivo a essa cultura do medo passa, necessariamente, por reformas estruturais e processuais.”
O especialista também sustenta que o endurecimento das punições pode contribuir para reduzir a reincidência criminal, “com a revisão das regras de progressão de regime e a extinção de benefícios penais para crimes violentos, isso é essencial para evitar a reincidência imediata e reforçar a prevenção, visando o temor do criminoso em sofrer punições.”
André Santos Pereira afirma que o debate sobre segurança pública precisa priorizar a proteção das vítimas e a efetividade das punições. E crava: “A liberdade de ir e vir só será restaurada quando o risco de cometer um crime for maior do que o benefício que ele proporciona.”
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Fonte: André Santos Pereira – Delegado de Polícia do Estado de São Paulo, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública (Escola Superior de Direito Policial/FCA), presidente da ADPESP – Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo e diretor de Estudos e Propostas Legislativas da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (ADEPOL-BR).


